segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"DUAS MÃES - DUAS DORES - UMA SOLUÇÃO FINAL"

Olavo C. de A. Leonel Ferreira
olavo.ferreira@gmail.com


Na sexta feira próxima passada, despontaram duas personagens antagonicamente ligadas.
Duas mães apaixonadas por seus filhos. Algo as uniria a partir daquele momento, para nunca mais desatar. O filho de Edmar, em algum momento de sua história, por todos os motivos, impostos ou optados, resolveu dedicar sua vida ao lado transverso da lei. Buscou, por um caminho diverso do bem, proporcionar à sua mãe, esposa e filha, o luxo e o conforto ofertado àqueles que, por determinação, trabalho e sorte, vivem honestamente.
Ana, apenas trabalhava e aproveitava, com as limitações de toda e qualquer pessoa do sexo feminino de classe mádia - a sua vida. Consumia sua cota de conforto e pagava a de sacrifício à cada passo. lento e seguro. Ana perdera um filho de nove anos de idade em decorrência de leucemia.
Sérgio, o filho de Edmar, participou de um assalto e numa de suas erradas decisões, tomou sua última: Tomou Ana como refém. Com medo do erro e da catástrofe de uma morte de refém, a polícia, após assistir à retirada do pino de segurança da granada na posse do malfeitor, não teve outra opção. Deu sinal verde ao "sniper".
O policial, atirador de elite, cumprindo ordem e desempenhando papel para o qual treinou arduamente durante sua vida profissional, aguardou durante muitos minutos o momento certo. O tiro de precisão deve ser dado em uma região única do cérebro, para atingir o centro controlador dos movimentos. Acertando o alvo, mesmo que o bandido esteja com o dedo no gatilho, suas terminações nervosas e músculos não poderão premí-lo.
O major atirador atingiu seu alvo - ONE SHOT ONE SOUL.
A refém-mãe Ana, em choque, agradece ao major atirador. O agradecimento é tímido, pois gratidão demonstrada ostensivemente, como seria compreensível e até desejável, soaria como ofensa à outra mãe, que perdera um filho duas vezes. Uma vez para o crime e outra para a polícia.
Não poderia ser diferente para Edmar. Cria-se um filho com todos os sacrifícios à criação inerentes. Cuida-se da febre pelo nascimento de seu primeiro dente; arruma-se para ir à escola; dá-se o ombro ao primeiro choro silencioso por desilusão amorosa; vê-se o primeiro fio de barba, fino e comprido, como que cultivado em vaso. Ao final sabe-se pela televisão que informa com alegria o desfecho de uma situação de refém e o sequestrador morto é seu filho. Ouve-se por todo lado, frases, que embora corretas, dilaceram a alma de uma mãe, tais como: "Isto é uma faxina", "menos um para comer à nossa custa".
Mas a dor é personalíssima. Só esta mãe tem as duas únicas certezas possíveis neste caso. Em primeiro lugar, a inexorabilidade do fato. Ao entrar para o mundo do crime, ele escolheu viver pouco e intensamente. E em segundo lugar, que tudo poderia ser diferente.
Não sejamos hipócritas dizendo que Sérgio, o bandido, é uma vítima da sociedade. Não, ele não é. Há milhões de pobres, necessitados, “mulambos” de todo gênero na população brasileira e a maioria deles não roubaria ou furtaria nada, nunca. Exceção feita ao furto famélico e para sobrevivência de filhos.
Que nosso governo privilegia ricos; que o judiciário é falho e moroso; que não se tem emprego, lazer, cultura e educação. Ora isso são emblemas. Nem tão verdadeiros que nos enrubesçam e nem mentirosos o suficiente para nos mobilizar.
O problema é, em meu juizo, todo referente à educação.
Professores são desprezados, seja por seus salários aviltantes, seja pela falta de autoridade destes em sala de aula. A maioria dos professores apenas apresenta-se na sala de aulas. Os alunos, acostumados a não ter limites e não respeitar nada, desconsideram sua figura e continuam seus interesses, suas futilidades e sua má índole, transmitida por nós, que não soubemos passar aos nossos, os valores que herdamos, por medo de parecermos autoritários ou apenas para nos mostrarmos "cults" demais para crer em valores pré estabelecidos.
Os culpados somos apenas nós. Nós que não endireitamos nossos filhos, que obedecemos ditames de televisão, de que não se pode dar palmadas em crianças. Se você não corrige com palmadas, pode ter que reconhecer seu filho em um IML com um buraco de bala de fuzil na cabeça, com orifício de entrada de 1 centímetro e o de saída, do tamanho de uma noz.
Enquanto “glamourizarmos” figuras violentas e desumanas como Beira Mares, Marcolas e bandidos afins, como se eles fossem espertos e bem sucedidos, será difícil ensinar nossas crianças que trabalhar e estudar seja o único caminho.
O resumo dessa ópera bufa: Foi sim um excelente serviço do policial “sniper”. À mãe do alvejado, cabem a dor e a certeza de que agora... o problema acabou.

Um comentário:

Gustavo disse...

Não há muito o que acrescentar a esta explanação. Talvez o fato de que, se o indivíduo não é vítima da sociedade, a sociedade é vítima dela mesma. São tantos valores distorcidos que é fácil uma mente instável descambar para a violência, a sexualidade distorcida e ao crime. Não acredito que o meio, a educação e os veículos de comunicação sejam, isoladamente, para que se formem a mente doentia. Há de se levar em conta uma série de farores, tais como a índole do indivíduo, a carga genética e muitos outros. Sei de um caso de uma família de quatro irmãos. Filhos dos mesmos pais, criados do mesmo jeito, com oportunidades iguais de estudo. Todos nasceram na mesma favela. Um deles é gerente geral de uma agência bancária, outro é PM, o terceiro, seminarista e o quarto está preso por estupro e latrocínio.
Mas é inegável que os fatores internos podem, sim, facilitar a inclinação do indivíduo para o "CERTO" ou para o "ERRADO".
é lamentável que a morte de um filho pode ser visto como uma SOLUÇÃO FINAL, mas parece que foi mesmo. Pode ser creditado, em parte, ao sistema penitenciário, o ato desesperado do bandido morto. Ele passou duas vezes por ele. Se o sistema não priveligiase a ociosidade e sim a produtividade, menos pessoas reincidiriam no crime e menos mães teriam que passar pelo dilema de sentir dor e alívio pela morte do filho.